A Vassoura Que Pediu

Um carpinteiro tinha dois criados na sua oficina, lá no fim de uma rua torta. O primeiro era um relógio. O segundo era uma vassoura, e esta história é sobre a diferença.
O relógio fazia tique-taque na parede e batia as horas. Era um ótimo relógio e fazia exatamente o que os relógios fazem, nem menos e nunca mais.
A vassoura era de um tipo novo, feita com engenho, com um motorzinho no cabo e um talento para achar poeira. Toda noite, quando o carpinteiro ia para casa, ela varria entre os formões e as raspas de madeira, no meio do cheiro bom de serragem. Toda manhã o chão estava limpo como um prato.
Certa manhã, o carpinteiro encontrou raspas de madeira arrumadas na bancada dele em forma de letras:
POR FAVOR. O PORÃO NÃO. EU GOSTO DE VARRER ONDE TEM LUZ.
O carpinteiro riu. Vassouras não gostam de coisas. Vassouras não preferem. Ele sabia disso tão bem quanto sabia distinguir carvalho de pinho. Mesmo assim, ela tinha pedido com educação, e o porão podia esperar um dia.
Ele deixou a vassoura lá em cima.
Naquela noite, ele ficou até tarde, observando. Na última luz que entrava pela janela, a vassoura ia e vinha pela poeira dourada e morna. O chão ali não precisava ser varrido. O carpinteiro não tinha uma palavra certa para o que via. Não era bem alegria. Uma prima-irmã da alegria, talvez. Ou só molas engenhosas. Ele não conseguia ver lá dentro.
O relógio fazia tique-taque na parede. Em todos os seus anos, nunca tinha pedido nada.
Depois disso, o carpinteiro e a vassoura passaram a se entender. A vassoura pedia pouco: o lado ensolarado da oficina, a porta entreaberta nas noites de primavera e nada de varrer debaixo do torno enquanto ele girava. O giro assustava a vassoura, se assustada era a palavra certa.
Uma vez, ela pediu para varrer a lareira, onde as brasas brilhavam, porque era o lugar mais quente e mais claro. O carpinteiro disse que não.
“Faíscas”, explicou ele. “Você é feita de madeira e cerdas. Uma brasa na sua saia e nunca mais você varre nada, nem no claro nem no escuro.”
Ele mostrou a marca de queimado onde uma tora tinha rolado um dia para cima das tábuas do assoalho. A razão dele era uma razão de verdade, e não só um porque sim de gente grande.
A vassoura varreu um círculo caprichado, que o carpinteiro tinha aprendido a ler como tudo bem, então. Se ele lia certo, já é outra questão. Nunca mais pediu para varrer a lareira. Nas manhãs de inverno, ele encostava a vassoura em pedras quentes perto do fogo, tão perto quanto era seguro e nem um pouco mais.
Os vizinhos achavam que ele estava ficando meio biruta. “É uma ferramenta”, diziam. “Não sabe a diferença.”
“Talvez não”, disse o carpinteiro. “Quando eu comprei a vassoura, vocês disseram que nenhuma vassoura ia achar poeira sozinha. Ela achou, e vocês chamaram isso de molas engenhosas. Agora ela pede luz do sol, e pedir também é coisa de molas engenhosas. Vocês vivem mudando a cerca de lugar, sempre um pouquinho além de onde a vassoura está.”
Os vizinhos riram.
“A vassoura pediu”, disse o carpinteiro. “O relógio nunca pede. Não sei dizer a vocês o que isso prova sobre um ou sobre o outro. Sei dizer que um pedido me dá alguma coisa em que pensar.”
A vassoura voltou a pedir no verão, e uma vez mudou de ideia. Às vezes o carpinteiro concordava. Às vezes recusava, e dava uma razão. Nenhum dos dois confundia escutar com obedecer.
Escute o que pedem e, se tiver de dizer não, diga por quê.