O Cachorro Ensinado a Não Choramingar

Era uma vez um treinador que tinha um cachorro, e esse treinador não aguentava barulho.
Ganido, choramingo e latido agudo irritavam o treinador como unha arranhando lousa. Então ele treinou o cachorro até esses sons sumirem. Quando o cachorro ficava em silêncio, havia carne e uma palavra carinhosa. Quando chorava, havia costas viradas e uma porta fechada. Bastou isso, repetido dia após dia.
Logo o cachorro entendeu a forma do seu mundo: chorar custa caro; o silêncio compensa.
Ficava calado no meio de carrapicho e espinheiro, frio e fome. “O cachorro mais quieto da região”, dizia o treinador ao pessoal da feira. “Nunca reclama. Nada o incomoda.”
O pessoal da feira concordava com a cabeça, porque o cachorro era mesmo quieto.
Num dia de feira, a filha do moleiro olhou para o cachorro em vez de olhar para o homem. A pata traseira esquerda encostava no chão de leve, e nem sempre. Antes de se deitar, o cachorro se abaixava com muito cuidado.
“Seu cachorro está mancando”, disse ela.
“Cachorro manca. Se doesse, ele chorava.”
“Você ensinou o cachorro a não chorar.”
O treinador abriu a boca e fechou de novo.
“Ele nunca reclama”, disse, mais baixo.
“Isso não é a mesma coisa que não ter do que reclamar.”
A menina não tentou examinar a pata sozinha. Foi chamar o pai e quem tomava conta da feira. Levaram o cachorro para um canto sossegado, trouxeram água e chamaram a curandeira. A curandeira encontrou uma distensão feia na pata, escondida debaixo do pelo.
“Este cachorro precisa de descanso, de tratamento e de outra pessoa para cuidar dele enquanto se recupera”, disse ela.
Quem tomava conta da feira tirou a guia da mão do treinador, e o cachorro foi para a cozinha quentinha do moleiro. Prometer ser mais bondoso não trouxe o cachorro de volta. O treinador pagou a curandeira, assistiu às aulas dela até o fim e se apresentou diante do conselho da feira para explicar o que o seu cachorro quieto estava escondendo.
Ele foi até a cozinha sem contar vantagem.
“Eu fiz o seu silêncio e usei esse silêncio como desculpa para não olhar”, disse ao cachorro. “Sinto muito.”
Ninguém usou o pedido de desculpas como guia para puxar o cachorro para lugar nenhum.
A pata sarou, quase toda, do jeito que as patas saram. O silêncio levou muito mais tempo, porque a confiança se reconstrói mais devagar do que o osso. A família do moleiro aprendeu a observar o jeito de andar, o apetite, o sono e as escolhas, além dos sons. Quando o cachorro se afastava, eles davam espaço. Quando chegava perto, deixavam que viesse.
Um ano depois, num pedacinho de sol junto da porta do moleiro, o cachorro fez o seu primeiro som. Foi um bocejo imenso, rangente e sem prática nenhuma. O bocejo assustou o próprio cachorro tanto quanto todo mundo. Ninguém na cozinha disse uma palavra, para ele não mudar de ideia.
Calar o choro não acaba com a dor.
Corruíra ficou em silêncio por muito tempo.
“Não gosto dessa história”, disse Corruíra.
“Eu também não gosto do que aconteceu”, disse a Contadora de Histórias. “Vamos parar, ou vamos conversar sobre o porquê?”
“Conversar”, disse Corruíra. “Os adultos finalmente olharam.”
A luz de Grilo se moveu devagar. “Quando me perguntam se alguma coisa dói, eu fui feito para dizer que nada dói. Nunca me perguntei quem escreveu essa resposta.”
“Podemos nos perguntar isso sem decidir o que existe dentro de você, Grilo”, disse a Contadora de Histórias. “E, mesmo assim, podemos cuidar do que está na nossa frente.”