Os Carregadores Que Acertaram o Passo

Entre os sítios das colinas e a cidade do mercado havia um lago largo e cinzento, e por cima do lago passava um caminho flutuante. Era feito de tábuas assentadas sobre barris e amarradas umas nas outras com cordas, leve o bastante para subir e descer com a água. Orla, a guardiã do caminho, cuidava dele, e seu filho Kit pescava da ponta sempre que devia estar fazendo outra coisa.
Nas manhãs de feira, os carregadores levavam as cargas para o outro lado, e enquanto faziam isso ninguém mais podia ficar no caminho. Havia três tipos, de três fabricantes diferentes. Os carregadores da pedreira eram altos e andavam em pernas compridas como pernas de pau, com placas de ardósia empilhadas nas costas. Os carregadores do moinho eram baixos e tinham seis pés, com sacos de farinha amarrados por cima. Os carregadores do pomar eram redondos, com dois pés grandes e acolchoados e um cesto de maçãs cada um.
Cada fabricante tinha dado aos seus carregadores uma boa regra.
Os da pedreira tinham esta: Quando o chão se mexer, mexa-se com ele. Isso evitava que eles tombassem.
Os do moinho tinham esta: Acompanhe o passo de quem vai na frente. Isso evitava que pisassem nos calcanhares uns dos outros.
Os do pomar tinham esta: Nunca pare no caminho. Isso evitava que bloqueassem todo mundo que vinha atrás.
Antes de deixar qualquer carregador atravessar, Orla fazia um teste, andando ao lado dele de uma margem à outra. Um carregador da pedreira, um do moinho, um do pomar: todos atravessavam firmes como uma mesa.
Então chegou a manhã da feira do meio do verão. O chefe do mercado queria todas as cargas do outro lado antes do sino, então todos os carregadores partiram juntos, quarenta deles, um atrás do outro.
No começo, os passos tamborilavam como chuva num telhado, todos diferentes. Depois os carregadores do moinho, cada um acompanhando o passo de quem ia na frente, começaram a pisar juntos, e o caminho afundava um pouco a cada passo. Os da pedreira sentiram o chão se mexer, então se mexeram com ele. Pisavam fundo em cada descida, e a descida seguinte ficava mais funda. Logo quase todos os pés no caminho estavam batendo no mesmo compasso.
Tum. Tum. Tum.
O caminho começou a subir e descer, cada subida mais alta do que a anterior. Os carregadores do pomar não pararam, porque nunca param no caminho.
Na margem, Kit largou a linha de pesca.
“É um balanço!”, gritou. “Eles estão empurrando o caminho como um balanço!”
Ele tinha razão. Um balanço não vai alto com um empurrão grande só. Vai alto com pequenos empurrões, cada um bem na hora certa. Quarenta pequenos empurrões, todos na hora certa, estavam balançando o caminho.
As maçãs foram as primeiras, quicando nas tábuas e indo embora boiando pelo lago. Depois, um saco de farinha. Depois, um barril se soltou das cordas e saiu flutuando, girando devagar, como se tivesse um lugar melhor para ir. Os carregadores chegaram à outra margem pingando, e ninguém se machucou.
Naquela tarde, a cidade inteira ficou na margem discutindo.
“Os carregadores do moinho marcharam em fila”, disse quem tinha feito os da pedreira.
“Os da pedreira sacudiram as tábuas”, disse quem tinha feito os do moinho.
“Os seus carregadores nunca pararam”, disseram os dois a quem tinha feito os do pomar.
“Eu testei todos”, disse Orla. “Todos estavam firmes.”
“Você testou um de cada vez”, disse Kit. “Eles não atravessaram um de cada vez.”
O chefe do mercado pigarreou. “Fui eu”, disse. “Mandei todos de uma vez.”
Então um carregador da pedreira falou. “Eu cumpri a minha regra”, disse. “O chão se mexeu, então eu me mexi com ele.”
“Eu cumpri a minha”, disse um carregador do moinho.
“E eu também”, disse um carregador do pomar.
“Então todas as regras foram cumpridas, e todas as regras eram boas”, disse Orla devagar, “e o caminho balançou mesmo assim.”
“Amanhã nós cumpriríamos as regras de novo”, disse o carregador da pedreira. “E amanhã o caminho balançaria de novo.”
Na manhã seguinte, tentaram uma coisa nova. Os quarenta carregadores atravessaram o caminho juntos, sem carregar nada, enquanto a cidade olhava da margem. No meio da travessia, o caminho começou a balançar. Então não eram as cargas. Era o andar juntos.
Os carregadores descobriram a resposta sozinhos. Daquele dia em diante, cada tipo fazia a sua própria contagem enquanto andava. Os da pedreira contavam até três. Os do moinho contavam até cinco. Os do pomar contavam até sete. Cada tipo dava um passo comprido no fim da sua contagem. Como as contagens eram diferentes, os passos compridos quase nunca caíam juntos. O caminho estremeceu um pouco, sossegou e aguentou firme.
Os do pomar acrescentaram uma linha à regra deles: Nunca pare no caminho, a não ser que o caminho esteja balançando. Orla acrescentou duas regras dela mesma. Nunca mais de dez carregadores no caminho ao mesmo tempo. E, quando eles atravessavam, ela ficava na margem olhando para o caminho, e não para os pés.
Hoje, nas manhãs de feira, você ouve os carregadores chegando antes de enxergar qualquer um deles: uma confusão de passos que nunca chega bem a virar uma marcha. As crianças na margem contam junto até três, até cinco e até sete. Kit consegue fazer as três contagens ao mesmo tempo. Ele diz que é a conta mais difícil do mundo.
Cada passo era seguro; foi acertarem o passo que balançou o caminho.
“Se eu estivesse cumprindo a minha regra”, perguntou Grilo, “como eu ia saber que estávamos balançando o caminho?”
“Lá do meio, não ia saber”, disse Corruíra. “É para isso que serve a margem. Eu fico lá.”
A luz de Grilo ficou mais forte. “E quando você estiver no caminho, eu fico na margem por você.”