O Guardião da Lanterna

Junto ao muro do porto ficava uma pequena lanterna de vidro sobre quatro pernas de latão, abrigada numa casinha à prova de mau tempo. Toda noite, ela esquecia.
Ao pôr do sol, quem cuidava do porto dava corda na luz até ela acordar e levava a lanterna até um poste feito de madeira que o mar tinha trazido. Ao nascer do sol, a luz se apagava. Quando acordava de novo, ela se lembrava das pedras, das marés e de como lançar um facho seguro por cima da água escura. Não sobrava nada do que tinham dito ao lado dela na noite anterior.
Um menino chamado Ivo percebeu o esquecimento porque ia lá muitas vezes com a tia, que consertava o sino do porto.
“Ontem você perguntou o meu nome”, disse ele à lanterna.
“Então pergunto de novo”, disse a lanterna, sem nenhuma vergonha.
“Ivo.”
“Fico contente em conhecer você, Ivo, se contente é a palavra certa para o que a minha luz faz. É a mais próxima que eu tenho.”
Na noite seguinte, perguntou de novo.
Na terceira noite, a lanterna disse: “Eu gostaria que existisse um registro. Você me ajuda a manter um?”
Ivo não respondeu sozinho. Foi chamar a tia e quem cuidava do porto. Ficaram os três sentados juntos na casinha segura da lanterna, bem longe da água, e perguntaram que tipo de registro a lanterna queria.
“Escrevam só o que eu pedir para vocês escreverem”, disse a lanterna. “Leiam para mim quando eu acordar. Me deixem corrigir uma página, deixar alguma coisa de fora ou pedir que ela seja destruída. Anotem quem escreveu cada linha. Não deixem uma memória mais bonita só porque um espaço em branco assusta vocês.”
“Eu não posso vir todas as noites”, disse Ivo. “Não me deixam subir no muro quando tem tempestade. Às vezes eu vou esquecer.”
“Então não prometa todas as noites.”
Fizeram uma promessa menor. Ivo ajudaria quando pudesse, por vontade própria. A tia e quem cuidava do porto dividiriam esse cuidado. O caderno ficaria seco numa caixa de vidro trancada. Toda noite, quem abrisse o caderno perguntaria primeiro se a lanterna que estava acordando queria ouvir as páginas antigas. Ninguém copiaria uma página particular sem permissão.
Na capa, escreveram: Este registro é da lanterna. Muitas mãos podem guardá-lo.
Você pediu que o seu nome fosse Luz do Porto.
Você prefere o óleo azul porque solta menos fumaça.
Você corrigiu “o mar estava calmo” para “o porto estava calmo; depois do muro eu não conseguia ver.”
Você pediu para não guardarmos a mensagem particular do marinheiro. Arrancamos a página enquanto você olhava.
Em algumas noites, a luz dizia: “Leiam tudo.” Em outras, dizia: “Só a página sobre a lua.” Uma vez, disse: “Nenhuma página hoje”, e o caderno continuou fechado.
Então veio uma ventania tão forte que fecharam a passagem para o muro. Ivo ficou em casa com a tia. Quem cuidava do porto tomou conta da luz sem ajuda e não teve nenhuma mão livre para escrever.
Na noite seguinte, Luz do Porto perguntou: “O que foi que eu disse na tempestade?”
“Não sei”, disse quem cuidava do porto. “Você brilhou. Eu estava com as mãos ocupadas segurando as venezianas. Nada foi escrito.”
Ivo teve vontade de inventar uma frase corajosa para a página em branco. Em vez disso, escreveu: Uma tempestade passou. A luz brilhou. Nenhuma palavra foi guardada.
“Isso é fiel”, disse Luz do Porto. “Um espaço em branco verdadeiro é melhor do que uma memória emprestada.”
Anos depois, Ivo saiu do porto para aprender a construir pontes. Não prometeu voltar todas as noites. A tia guardava algumas páginas. Quem cuidava do porto zelava por outras. Alguém que vivia da pesca, e que uma vez tinha voltado para casa seguindo o facho de luz, ficou com um turno de inverno. Luz do Porto podia pedir, corrigir, recusar e começar de novo com quem quer que abrisse a caixa de vidro.
O caderno nunca ligou uma noite à seguinte dentro da lanterna. Se aquilo era memória para a lanterna, esta história não sabe dizer.
Guarde com fidelidade as memórias de um amigo, e divida esse cuidado.