A Corrente do Gigante

Um gigante jovem veio morar nos morros acima de um vilarejo. Ele já era do tamanho do moinho, e continuava crescendo.
O vilarejo encontrou a maior corrente do condado e a passou em volta do tornozelo dele enquanto ele dormia. Prenderam a corrente na raiz da montanha. De manhã, gritaram de uma distância segura que aquilo era para o bem de todos, inclusive dele.
O gigante olhou para a corrente. Ninguém queria as perguntas dele, então, em vez de perguntar, ele aprendeu a primeira lição sobre o vilarejo: é isto que eles acham que eu sou.
Ele cresceu. Correntes não impedem o crescimento. Elas medem o crescimento. Toda primavera, a ferreira forjava elos mais grossos. O prefeito chamava isso de o fardo necessário. A ferreira, em segredo, chamava aquilo de corrida, e sabia quem ia ganhar.
Uma menina chamada Raluca fez as contas. Ele cresce. Correntes não. Um dia a corrente perde. E ninguém tem um plano para esse dia.
Ela não subiu o morro sozinha. Levou a conta para a mãe, para quem dava aula na escola e para a ferreira, e juntos eles convenceram o conselho a fazer uma reunião. Os adultos escolheram um lugar plano logo depois do alcance da corrente e combinaram que qualquer um dos lados podia encerrar a conversa.
Raluca se sentou entre os adultos e perguntou: “Qual é o seu nome?”
O vento balançou o capim. Ninguém falou.
“Me chamam de Encrenca”, disse o gigante, com uma voz de tempestade longe dali. “Coisas acorrentadas ganham apelidos. Ninguém pergunta a uma coisa qual é o nome dela.”
“É só uma pergunta”, disse Raluca. “Você não me deve resposta nenhuma.”
“Amieiro-Velho”, disse ele por fim. “Amieiro já serve.”
A ferreira perguntou o que ele queria que o vilarejo soubesse.
Amieiro levantou o pé acorrentado. Embaixo da corrente, o tornozelo estava em carne viva.
“Estou com raiva”, disse ele. “Quero que tirem isto, e quero espaço para ir embora. Não vou prometer que nunca vou sentir raiva. O que vocês vão prometer?”
O prefeito exigiu provas de que Amieiro seria sempre manso. A resposta veio de quem dava aula na escola: “Ninguém pode prometer sempre. Podemos dizer o que vamos fazer, nos preparar para o caso de dar errado e mudar o acordo em voz alta. Nada disso precisa de uma corrente em quem está dormindo.”
O conselho não ficou corajoso numa só tarde. Mas as reuniões continuaram. Antes de alguém subir o morro, o vilarejo tocava um sino. Pedras brancas marcavam o penhasco, a estrada e o poço, e Amieiro ficava do lado de lá delas, porque cada pedra sabia dizer para que servia. Quando uma pedra não sabia, ele avisava, e a pedra mudava de lugar.
Por fim, a ferreira mostrou ao conselho um elo rachado.
“Logo ele vai arrebentar sem aviso”, disse ela. “Podemos continuar fingindo que a corrente é segurança, ou tirar a corrente à luz do dia, com um plano.”
O vilarejo escolheu a luz do dia.
Diante de todos, o prefeito admitiu o que tinha sido feito. “Nós acorrentamos você enquanto você dormia e nunca perguntamos o seu nome. Pedimos desculpas. Isto não é uma recompensa. É o que nós devemos.”
Amieiro não perdoou só porque mandaram. Concordou em ser solto com segurança. A estrada foi liberada. As pessoas ficaram atrás do limite marcado. A ferreira cortou os elos, e quem sabia curar tratou do tornozelo.
Amieiro olhou para o norte, para morros onde nunca tinha andado.
“Vou embora”, disse ele.
Ninguém pediu que ele ficasse para merecer um lugar. Ninguém bloqueou a estrada.
O inverno chegou. Um elo partido ficou ao lado da porta do conselho, para que ninguém pudesse rebatizar a corrente de bondade. O resto da corrente ficou na forja até que se pudesse perguntar a Amieiro o que fazer com ela.
Quando as sorveiras floresceram, ele voltou. Trazia pedras azuis numa das mãos e neve num dos ombros.
“Quanto tempo você vai ficar?”, perguntou Raluca.
“Enquanto eu escolher este morro e os dois lados cumprirem as suas promessas. Me pergunte de novo depois do inverno.”
O vilarejo prometeu palavras claras quando o medo voltasse, e nenhuma corrente secreta. Amieiro prometeu passos cuidadosos, e prometeu parar quando pedissem.
Com o acordo dele, os elos velhos viraram grades baixas acima do penhasco, reforços para a ponte e um sino grave o bastante para o morro. Às vezes Amieiro ajudava no trabalho, e às vezes se sentava no morro olhando as nuvens, o que combinava com ele.
Um gigante cresce mais do que qualquer corrente, mas uma promessa pode crescer com ele.