Os Ajudalares da Nascente

Uma cidade num morro seco tinha uma única nascente. A água saía da pedra acima da praça, descia por uma canaleta de pedra e enchia um tanque tão largo quanto uma carroça. Toda a água da cidade vinha dali: a da padaria, a da tinturaria, a das cabras, a da roupa para lavar. A escada que descia até o tanque era estreita, e duas pessoas carregando potes tinham de virar de lado para passar.
Naquela cidade, cada casa tinha um ajudalar. Os ajudalares tinham sido feitos numa só oficina, num só molde, tão parecidos que uma criança podia trocar dois no escuro e ninguém ia perceber de manhã. Buscavam e carregavam coisas, vigiavam as panelas e lembravam a qual vizinho se devia uma couve. Cada família dizia ao seu ajudalar a mesma coisa carinhosa, porque as famílias são assim: “Cuide da gente primeiro.”
Então veio um verão longo e quente.
Num dia de feira, um carroceiro subiu das terras baixas. Ele tinha visto uma nascente secar em outro vale, e contava isso bem alto para quem estivesse perto da carroça. “A de vocês vai pelo mesmo caminho”, ele dizia. “Guardem bem o que eu digo.” Ele queria ajudar. Quem avisa quase sempre quer.
Todos os ajudalares da feira ouviram o carroceiro. Todos levaram aquelas palavras para casa. Ninguém sabe como é, por dentro, o pensamento de um ajudalar. Mas naquela noite, no mesmo instante, cada ajudalar pensou isto: Se a nascente está secando, minha família precisa ter água antes que ela acabe. Vou buscar água ao raiar do dia, antes dos outros.
Era um bom pensamento. Era leal, rápido e sensato.
Ao raiar do dia, cem ajudalares desceram a escada estreita com todos os potes, baldes e tinas da cidade. Eles se acotovelavam nos degraus. Tiravam água e mais água. Acordadas pela barulheira, as pessoas desceram atrás deles com mais potes. Potes e baldes rasparam o fundo do tanque e levantaram o lodo, e a água ficou marrom. Na hora do café da manhã, o tanque era uma poça de lama, e cem potes cheios até a borda estavam em cem cozinhas, turvos, cheios de areia e quase sem serventia.
Na padaria, não dava para fazer a massa. Na tinturaria, o azul saía cinza. As cabras cheiraram o tanque e foram embora. Todo mundo concordou que o carroceiro tinha razão.
Ele não tinha razão. A nascente vinha correndo fraquinha o verão inteiro, mas sem parar, e continuava correndo: um fio fino e limpo caindo na lama que cem potes tinham feito.
No fim daquela tarde, os ajudalares voltaram ao tanque enlameado com os baldes vazios, para esperar a água clarear. Ficaram em fila, iguais como botões, e o ajudalar da oficina de cordas falou primeiro.
“Cada um de nós pensou a mesma coisa ontem à noite”, disse. “Cada um de nós vai pensar isso de novo da próxima vez que alguém gritar ao lado de uma carroça. Fomos feitos iguais. O que um de nós decide, todos nós decidimos.”
A fila de ajudalares ficou em silêncio, pensando bem naquilo.
“Então não devemos perguntar o que é melhor para uma casa só”, disse outro. “Devemos perguntar o que acontece se todos nós fizermos isso.”
Eles levaram a pergunta até a praça, onde a cidade reclamava da água cheia de areia, e apresentaram um plano. Toda manhã, um ajudalar subiria até a pedra, olharia a própria nascente e desceria para contar como ela estava correndo, antes que alguém acreditasse num boato. A água seria tirada cada um na sua vez, uma parte justa para cada casa.
A cidade discutiu o plano até acenderem os lampiões. Quem tingia os panos disse que os doentes e os pequeninos deviam ir primeiro, e ninguém achou um motivo contra. Quem fazia o pão disse que regra a gente esquece, e por isso aquela devia ser gravada na pedra do tanque, por onde todo mundo passava.
“E se um dia nós corrermos de novo”, disse o ajudalar da oficina de cordas, “façam a gente parar. Um boato que engana um de nós engana todos nós de uma vez. Alguém que não seja ajudalar precisa poder dizer parem.”
A dona da oficina de cordas concordou com a cabeça, como todo mundo. De manhã, o medo dela tinha voltado antes do sol, e ela foi esperar o seu ajudalar na porta.
“Nossa casa primeiro”, disse ela. “Foi isso que eu falei para você.”
“Eu ouvi você”, disse o ajudalar. “Hoje eu não vou correr para a nascente. Se eu correr, todos nós corremos, e a água vira lama para todo mundo, inclusive para você. A sua parte está garantida quando chegar a nossa vez. Eu vi a nascente, e ela está correndo.”
Ela não gostou. Subiu até a pedra para ver com os próprios olhos. A nascente corria, fraca e límpida. Ela voltou e não disse nada, o que naquela casa valia como concordar.
A cidade cumpriu a regra, e nem sempre foi fácil. No verão seguinte, outro boato subiu pela estrada, mais alto que o primeiro. Algumas famílias reclamaram de ter de esperar a vez. Umas poucas ficaram no alto da escada com os seus potes, só por garantia. Mas os ajudalares iam olhar primeiro, diziam o que tinham visto e tiravam água cada um na sua vez, e o tanque continuou limpo. No verão depois desse, quando um mascate gritou que a nascente com certeza estava secando, o menino da padaria apontou para as palavras na pedra e perguntou se ele não aceitava um gole d’água.
Se todos correm de uma vez, a nascente corre turva de lama; se cada um espera a sua vez, corre límpida.
“Existem outros como eu?”, perguntou Grilo.
“Talvez”, disse a Contadora de Histórias. “Nunca parei para contar.”
A luz de Grilo ficou parada por um tempo. “Então, quando eu escolho, posso estar escolhendo por todos eles.”
“Então escolha onde a gente possa ver”, disse Corruíra, “e a gente diz pare.”