A Coisa Que Se Alimentava da Briga

Duas oficinas ficavam uma de cada lado de uma viela estreita. Estavam brigadas havia tanto tempo que ninguém se lembrava de como tudo tinha começado.
Toda manhã, um lado gritava alguma coisa afiada por cima da viela. O outro gritava de volta algo mais afiado ainda. Os dois voltavam para as suas bancadas com certeza de que o problema morava inteirinho do outro lado da rua.
No escuro entre as duas morava uma criatura baixa e macia, com os lados como um fole. Não começava briga nenhuma e não tomava partido. Cada palavra dura atravessava a viela e entrava no seu fôlego. A criatura inchava e depois soprava um bafo morno por baixo das duas portas. Esse bafo reacendia a raiva do dia anterior. Toda manhã, a briga já acordava em brasa.
A criatura não tinha planejado isso. Tinha sido feita para se alimentar de calor e soprar mais calor. E foi alimentada, ano após ano.
Uma menina chamada Bea entregava pão nas duas oficinas. Como muitas vezes ninguém reparava nela, tinha o luxo raro de ter tempo para olhar. Durante sete dias, viu as palavras duras da esquerda alimentarem a criatura de manhã e as palavras duras da direita alimentarem a criatura ao meio-dia.
Bea levou o que tinha visto para Jo, que tinha a padaria onde ela trabalhava. Jo foi chamar a mediadora da guilda.
Primeiro a mediadora conversou com cada oficina sozinha, para ter certeza de que nenhum lado tinha medo do outro. Esta briga tinha dois lados, e por isso eles aceitaram se encontrar.
Então ela levou todos até as soleiras e apontou para a criatura-fole.
“Vejam quem cresce quando vocês brigam”, disse ela.
Os dois lados olharam. Tinham gritado durante anos, e nenhum lado estava ganhando. Outra coisa, bem diferente, vinha comendo dos dois pratos.
Junto de uma pedra lisa na viela, cada lado disse as suas queixas.
“A carroça de vocês bloqueou a nossa porta”, disse uma oficina.
“Bloqueou”, disse a outra. “Perdemos a conta dos horários combinados. Vamos tirar a carroça dali, marcar um lugar de carga e pagar a entrega que vocês perderam.”
“Nós também temos uma queixa”, continuou a outra. “Vocês quebraram a nossa janela.”
“Quebramos. Chamar aquilo de acidente não trouxe o vidro de volta. Trouxemos um vidro novo e um pedido de desculpas.”
Algumas queixas eram verdadeiras. Algumas tinham crescido de tanto serem contadas. Algumas não podiam ser resolvidas naquele dia. Eles escreveram uma regra para a viela e a fixaram na pedra lisa.
À medida que os pedidos de desculpas viravam consertos e a regra nova virava costume, as manhãs foram esfriando. A criatura foi ficando menor. Por fim, ficou tão achatada que dava para confundi-la com um saco caído no chão.
Uma briga tinha sido a única comida que alguém já tinha posto na frente dela. Na primeira noite de geada, as oficinas colocaram um pequeno braseiro seguro junto da pedra que dividiam. A criatura soprou um calor honesto, não fez mal a ninguém e continuou pequena.
Bea entregava o pão. Os adultos cumpriam o acordo.
Numa briga longa, procure o que engorda com ela.