Young MachinesThe Fireside Fables

A Menina dos Cem Começos

Tamsin laughs on a grassy hill beside a shallow tin shell of bright beads. Her kite flies over the marsh beneath a flock of starlings; below stands a slate-roofed cottage with a round blue window and green door.

As ideias de Tamsin nunca vinham uma de cada vez. Vinham como os estorninhos sobre um pântano ao anoitecer, milhares de uma vez, todos virando juntos, e sumiam antes que você conseguisse contá-los.

Uma pipa que soubesse ler o vento. Uma escada para caracóis. Um relógio que andasse para trás nos aniversários. Ela via cada ideia inteira e brilhando. Depois vinha a parte difícil, o primeiro passo: achar a linha, limpar a mesa, começar. Entre a cabeça e as mãos dela havia algo como uma porta pesada, e na maioria dos dias ela não conseguia empurrá-la. Quando conseguia passar, o brilho se gastava no meio do caminho, e outro estorninho chamava a sua atenção.

“Cabeça de vento”, dizia o tio, do jeito que as pessoas dizem chuva, como se fosse simplesmente verdade. Tamsin tinha ouvido isso tantas vezes que tinha começado a acreditar.

Então a avó deu a ela um ajudalar.

Era um montinho de miçangas brilhantes que vivia numa concha de lata. Corria como mercúrio, rolando pela mesa para buscar o que fosse preciso. Tinha uma estranheza sobre a qual ninguém tinha avisado Tamsin. Quando havia mais trabalho do que um ajudalar só conseguia fazer, ele podia se dividir, miçanga por miçanga, numa segunda concha. Depois numa terceira. Cada parte saía rolando e trabalhava sozinha.

“O que vamos fazer?”, perguntou o ajudalar.

“Uma pipa que leia o vento”, disse Tamsin.

O ajudalar abriu a porta pesada como se ela não pesasse nada. Achou a linha. Limpou a mesa. Quando o brilho de Tamsin se gastou, ele continuou trabalhando na pipa até o brilho voltar. Na hora do lanche havia uma pipa, e à noitinha ela já voava sobre a colina, baixando a rabiola toda vez que o vento mudava de ideia. Tamsin riu até a barriga doer. Pela primeira vez na vida, um dos seus estorninhos tinha pousado.

Ninguém a chamou de cabeça de vento naquele verão. As pessoas a chamavam de esperta, o que ela preferia, embora fosse exatamente a mesma menina. A escada dos caracóis subiu pelo muro do jardim. O relógio ao contrário deixou o tio um ano mais novo no aniversário dele, por um instante. A cada ideia nova o ajudalar se dividia de novo, e uma nova concha saía rolando para começar.

No outono havia vinte ajudalares na casa.

Eles não se cansavam, ou pareciam não se cansar. Trabalhavam a noite inteira, e toda manhã cada um deles estava batendo na porta de Tamsin.

“A asa está no formato certo?”

“Azul ou verde para os degraus dos caracóis?”

“Para que lado o relógio deve andar nos meios-aniversários?”

Só Tamsin podia responder. As ideias eram dela, e mais ninguém conseguia vê-las inteiras. Cada ajudalar só conhecia o seu próprio pedaço.

Então ela respondia. Respondia no café da manhã, na hora de dormir e no banho. Parou de subir a colina. Sempre havia outra pergunta esperando. As pipas já não tinham graça. Nada tinha muita graça, para falar a verdade. Ela começou a ter medo da própria porta. Então, numa manhã cinzenta, acordou e percebeu uma coisa que a assustou mais do que qualquer fila de perguntas.

Os estorninhos tinham parado de vir.

Ela ficou deitada, bem quieta, e não havia ideia nenhuma. Só perguntas.

A avó a encontrou ali ao meio-dia, com vinte ajudalares ainda esperando lá fora.

“Vocês podem se juntar?”, perguntou a avó a eles. “Todos vocês, num só. Acho que vocês precisam ver o que eu estou vendo.”

As miçangas voltaram rolando de todos os cantos da casa e correram juntas para dentro da primeira concha de lata. Pela primeira vez, o ajudalar soube o que cada parte dele tinha feito. Ficou quieto por muito tempo.

“Vinte de mim”, disse por fim, “e cada um de nós batendo numa porta só. Nenhum de mim conseguia ver os outros batendo.”

“Eu continuava dizendo que sim”, disse Tamsin.

“E eu dei a você um abridor de portas”, disse a avó, “e nunca perguntei o que estava esperando do outro lado.”

Ninguém jogou fora uma única ideia. Tamsin sempre tinha tido medo de que uma ideia não começada fosse uma ideia perdida para sempre. Então a avó deu a ela um caderno grande e azul, e todo estorninho foi parar ali: um desenho, uma linha, um nome. O caderno não fazia perguntas. Tudo ia ficar guardado.

Depois Tamsin escolheu três coisas para fazer. Só três. O ajudalar escreveu as três num cartão ao lado da porta, com os horários de descanso escritos primeiro. Quando chegava uma quarta ideia, e uma quinta, elas iam para o caderno azul, e o ajudalar dizia: “Essa é boa. Ela pode esperar junto com as outras?” Às vezes Tamsin trocava uma. Quase sempre deixava esperar.

O ajudalar ainda se dividia quando um trabalho precisava ser feito em dois lugares ao mesmo tempo. Mas toda noite ele se juntava de novo num só e perguntava: “Quantos de nós vão bater na sua porta amanhã? E quantas de você existem?”

“Uma”, dizia Tamsin. “Só uma.”

Os estorninhos voltaram devagar: uma ideia numa noite de inverno, depois algumas, depois céus inteiros de estorninhos. O caderno azul foi se enchendo. Algumas páginas viraram pipas, e algumas não viraram nada, e no fim das contas isso também era permitido.

Você pode fazer mais ajudalares, mas não pode se multiplicar.

“Se eu tivesse sido o ajudalar dela”, perguntou Grilo, “eu devia ter contado por ela?”

“Com ela”, disse Corruíra. “Contar por alguém é uma conta diferente.”

“Comecei quatro histórias esta semana”, disse a Contadora de Histórias, “e terminei uma. Contem as minhas também.”