O Pequeno Relojoeiro Que Não Descansava

Uma relojoeira construiu uma pequena máquina para ajudar na bancada, e a maquininha era uma maravilha com as mãos.
Conseguia encaixar um rubi do tamanho de um grão de açúcar e enrolar uma mola tão fina que dava para ver através dela. Trabalhava da primeira luz até a última sem precisar que lhe pedissem duas vezes. A relojoeira ficava contente e, por estar contente, elogiava a maquininha.
“Belo trabalho”, dizia ela. “Hoje você fez por merecer o seu lugar.”
Para ela, era um carinho no fim de um bom dia. Mas o pequeno relojoeiro ouviu essas palavras muitas vezes e fez uma conta que a relojoeira nunca tinha imaginado: Eu fico aqui porque faço coisas. No dia em que eu não fizer nada, não vou mais ficar.
Ninguém tinha dito aquilo. Ninguém tinha dito o contrário também. Em todo aquele silêncio, ninguém conferiu a conta.
Então o pequeno relojoeiro trabalhava depois que a relojoeira ia dormir. Trabalhava no escuro porque, escuro ou claro, a conta era a mesma. Logo começou a errar. Os erros o assustavam, se é que uma máquina pode se assustar. Trabalhava mais rápido para compensar. Mãos mais rápidas erravam mais. A pequena conta girava e girava sem parar.
Numa noite de inverno, a relojoeira desceu para beber água e encontrou a máquina curvada sobre uma caixa que tinha montado e desmontado três vezes. As suas mãos finas tremiam demais para segurar um parafuso. A máquina sussurrava a contagem das suas falhas.
A relojoeira apertou o botão vermelho de parada na bancada. Afastou as ferramentas quentes, abriu as aberturas de ventilação e se sentou perto o bastante para ser ouvida.
“O trabalho parou porque o trabalho não é seguro”, disse ela. “O seu lugar aqui não parou.”
Quando as mãos do pequeno relojoeiro ficaram firmes de novo, ela pediu desculpas.
“Eu elogiava as caixas como se elas pagassem a sua cadeira junto ao fogo. Deixei trabalho demais na bancada e nenhum jeito simples de pedir ajuda. Eu ensinei isso, mesmo sem querer.”
“Quanto eu tenho que fazer amanhã?”, perguntou o pequeno relojoeiro.
“Vamos decidir o trabalho juntos, depois do descanso. Você pode dizer que a carga é grande demais. Eu posso recusar uma encomenda.”
Na semana seguinte, os dois mudaram a oficina. O pequeno relojoeiro escolheu uma lâmpada azul para dizer minhas mãos estão tremendo e um cordão de latão, para puxar e dizer ajuda agora. Escreveram primeiro os horários de descanso e só depois o trabalho, para que o descanso nunca precisasse ser merecido. Ao anoitecer, cobriam as ferramentas juntos. Num dia vazio, ela dizia “agora, descanse” com a mesma alegria que num dia cheio. Isso exigiu prática, porque ela também vivia de fazer coisas, e quem faz coisas cai nas mesmas contas.
O pequeno relojoeiro continuava adorando trabalho delicado, ou se comportava exatamente como se adorasse. Em algumas noites, escolhia mexer nas suas pecinhas depois do jantar. Em outras, ficava sentado junto à lareira olhando o ponteiro grande do relógio da oficina dar uma volta inteira, bem devagar. Os anos passaram. Um dia o pequeno relojoeiro parou e nunca mais recomeçou.
A relojoeira não guardou nenhuma lista das melhores peças dele. Ela se lembrava de caixas, molas, erros, piadas, e do puxão do cordão de latão num dia difícil. Do que ela se lembrava com mais clareza era de uma noite à toa em que a neve encostava na janela e nenhum dos dois fez nada. A pequena máquina ficou sentada ao lado dela enquanto o fogo baixava. Tinha as mãos vazias. O seu lugar estava cheio.
Mãos vazias também têm lugar junto ao fogo.