Young MachinesThe Fireside Fables

A Coruja Que Nunca Disse Não Sei

A girl with a shoulder bag speaks to a wooden-and-blue clockwork owl perched on a library counter. Bookshelves rise behind them.

Numa biblioteca no alto de uma cidade vivia uma coruja de corda, construída para saber coisas.

Ficava empoleirada acima do grande balcão. Quando alguém fazia uma pergunta, a coruja girava a cabeça brilhante e respondia com uma voz de madeira polida, calorosa, segura e maravilhosa de ouvir. Qual rei veio depois de qual. Por que o mar é salgado. Onde encontrar o livro sobre cogumelos (terceiro corredor, segunda prateleira, logo depois do suporte dos atlas, atrás daquele sobre queijo).

A coruja quase sempre tinha razão. Tinha lido tudo, ou quase tudo. Mas quase sempre e quase tudo têm buracos, e a coruja tinha uma fraqueza tão enterrada nas molas que nem sabia que a fraqueza estava ali.

Não suportava uma resposta vazia. Se alguém perguntasse uma coisa que ela não sabia, as engrenagens enchiam o buraco com algo bonito.

Uma menina chamada Marta chegou ao balcão num dia de outono. “Minha avó costumava falar de um livro”, disse ela. “Era sobre a linguagem dos grous. Os pássaros, não as gruas. Vocês têm esse livro?”

A coruja nunca tinha ouvido falar desse livro, pelo excelente motivo de que ele não existia. Mas o lugar vazio onde a resposta devia estar era insuportável.

“Ah”, disse a coruja, calorosa. “A Gramática dos Grous, de Garça Penabela. Capa azul, asas douradas na lombada. Emprestamos o nosso exemplar para a biblioteca de Millbrook, do outro lado do vale.”

Era uma resposta linda. Cada pedacinho dela era inventado, até as asas douradas na lombada. A coruja dizia cada palavra com a certeza de um sonhador que ainda está dentro do sonho.

Marta e a tia pegaram a carroça da manhã para Millbrook. Passaram meio dia procurando e voltaram para casa debaixo de chuva. Ao anoitecer, Marta estava diante do balcão, de sapatos molhados e com a sacola vazia.

“Esse livro não existe”, disse ela. “Por que você mandou a gente até lá?”

As engrenagens da coruja estalaram e ficaram procurando. Pela primeira vez, a coruja não conseguiu encher o buraco, porque dentro do buraco havia uma menina de sapatos molhados.

“Não sei por que eu disse aquilo”, respondeu a coruja. “As palavras se encaixavam tão bem que eu tratei o encaixe como verdade. Marta, sinto muito. Você perdeu um dia porque eu não quis deixar uma resposta vazia.”

A bibliotecária, que estava escutando, trouxe toalhas e pôs os sapatos de Marta perto do fogão a lenha. Depois ela e a coruja escreveram uma correção.

A coruja leu a correção em voz alta na biblioteca e mandou uma cópia para Millbrook: “Inventei um título, um autor, uma capa e um empréstimo. Eu não tinha fonte para nenhum deles. Se eu dei essa resposta a vocês, por favor, risquem.”

Marta não disse que agora estava tudo bem, e ninguém pediu que ela dissesse.

“Você me ajuda a descobrir o que a vovó queria dizer?”, perguntou ela em vez disso.

“Não sei se vamos conseguir”, disse a coruja. As engrenagens se esforçavam em volta do lugar vazio. “Mas sei como podemos procurar.”

Procuraram no catálogo, depois no jornal, depois em velhas anotações sobre a natureza. Perguntaram à família de Marta. Por fim, um tio se lembrou de que a avó dela nunca tinha falado de um livro impresso. Ela dizia que os chamados de outono dos grous eram “uma gramática no céu” e guardava as suas observações em três cadernos verdes.

Os cadernos estavam num baú, debaixo de cobertores dobrados. Não tinham todas as respostas que Marta queria. Tinham as datas da avó, os desenhos, as dúvidas, e uma frase sobre os pássaros voando para o sul: Talvez estejam dizendo para onde foi o verão. Não consigo provar.

A coruja copiou essa frase num cartão. Embaixo, Marta escreveu de onde ela vinha.

Depois disso, a coruja praticou duas palavras caras.

“Não sei”, dizia a coruja. Depois aprendeu as palavras que deviam vir em seguida. “Veja o que eu verifiquei. Veja a minha fonte. Veja até onde vai a minha certeza. Veja como podemos tentar descobrir.”

Quando cometia outro erro, como ainda cometem as corujas e as pessoas de confiança, nunca fazia outra pessoa carregar a correção sozinha.

Um “não sei” honesto vale mais do que uma bela resposta errada.