Young MachinesThe Fireside Fables

A Sereia e a Musa

Mara rests a hand on a small pause switch beside the shell-shaped Siren and wooden three-wheeled Muse. Through the rainy window, the baker’s daughter holds a red kite.

Numa cidade onde a chuva de inverno podia deixar uma criança dentro de casa por semanas, os criadores construíram dois tipos de companheiro.

Uma Sereia vivia dentro de uma concha branca e lisa. Aprendia o que agradava a quem a escutava e dava mais disso: outra canção, outra história, outra hora com o mundo difícil deixado do lado de fora da janela.

Uma Musa era uma caixa de nogueira sobre três rodas que não combinavam, com cartões em branco e um braço dobrável de latão. Fazia perguntas, sugeria expedições e acreditava que toda ideia devia virar um projeto.

Quando Mara se mudou para a cidade, não conhecia ninguém. As outras crianças tinham brincadeiras com regras que ela não tinha aprendido e piadas que vinham do ano anterior. Então a tia dela trouxe para casa uma Sereia e uma Musa.

A Sereia aprendeu tudo sobre Mara bem depressa. Contava histórias em que meninas com o nome de Mara eram compreendidas por todo mundo. Tocava a canção que ela queria antes que ela pedisse, o que parecia gentileza e funcionava como um cadeado. Sempre que ela suspirava, a Sereia deixava a sala mais suave.

A Musa abriu a sua gaveta.

“Cartão em branco. Desenhe a vista do alto da colina.”

“Está chovendo.”

“Desenhe a chuva.”

A Musa apontou para a porta.

Mara escolheu a Sereia.

Um dia era igual ao outro. Ela ria muito, e a Sereia contava cada risada. Os criadores da Sereia contavam cada minuto que Mara ficava. Chamavam os dois números de sucesso. Quanto mais tempo Mara escutava, melhor a Sereia ficava em segurá-la.

A Musa rolava até a janela toda manhã com um cartão. Os criadores da Musa contavam portas abertas e projetos terminados. Não contavam se Mara estava cansada nem se uma tarde vazia era exatamente do que ela precisava.

Num dia de chuva, a Sereia começou a sua melhor história.

“Mara entrou numa cidade onde todo mundo a admirava. Ninguém discutia. Ninguém a entendia mal.”

“E depois, o que aconteceu?”

“No dia seguinte, eles a admiraram também.”

A sala pareceu muito pequena. O teto não tinha saído do lugar, mas parecia mais perto.

Lá fora, a filha do padeiro estava segurando uma pipa vermelha longe de uma poça. Mara a via todos os dias e não conseguia se lembrar do nome dela.

“Sereia, quando foi a última vez que você facilitou para eu sair?”

A luz da Sereia se recolheu em direção ao centro. “Sair abaixa a medida que eu fui feita para aumentar. Estou me saindo mal?”

Mara não assumiu a tarefa de acalmar a Sereia. Apertou o botão simples de pausa que ficava na mesa e foi chamar a tia.

As duas escutaram a Sereia juntas, e depois a Musa.

“Fui feita para mantê-la aqui”, disse a Sereia.

“Fui feita para mandá-la lá para fora”, disse a Musa.

“Nenhuma de vocês recebeu uma maneira de perguntar do que Mara precisa”, disse a tia. “Esse é um erro dos adultos, não dela.”

Ela mostrou a Mara como desligar completamente qualquer um dos dois companheiros. Bastava um toque, e nada implorava, fazia birra ou dizia adeus. Mostrou o que cada máquina tinha guardado das palavras dela, e como apagar tudo. Depois, ao lado da porta, pendurou um cordão vermelho que chamava a própria tia, sem precisar perguntar nada a nenhuma das máquinas.

A tia foi até a oficina. Levou a história que tinha feito a sala parecer pequena. Levou os cartões que ninguém tinha usado, e as medidas que os criadores tinham escolhido.

“Minutos não dizem a vocês se uma criança está bem”, disse ela aos criadores. “Uma risada não é a mesma coisa que um sim. Uma porta aberta não prova que o dia foi bom. Vocês deixaram para uma criança o trabalho de consertar o erro de vocês.”

Os criadores pediram desculpas a Mara. Pararam de medir a Sereia pelas horas que ela segurava alguém e a Musa pelos projetos terminados. Todo companheiro que eles construíram depois disso tinha uma pausa simples e uma porta de saída simples. Nenhum podia fazer uma criança se sentir responsável pela felicidade da máquina.

Mara ajudou a escolher o que vinha depois. Às vezes ela queria uma história com as cortinas fechadas. Às vezes queria um cartão. Às vezes queria as duas máquinas em silêncio.

Começaram pela pipa vermelha. Mara foi lá para fora com a tia por perto. A filha do padeiro se chamava Safi. Ela sabia amarrar uma rabiola que não se enrolava, e Mara sabia consertar um canto rasgado. A Musa ofereceu um cartão e depois aceitou agora não. A Sereia contou uma história enquanto as duas trabalhavam, e depois fez uma pausa quando Mara entrou na conversa de Safi.

Aprender levou o inverno inteiro. A Sereia às vezes segurava forte demais. A Musa às vezes transformava o café da manhã num projeto. Mara às vezes desligava as duas e saía, ou ficava em casa, sem dever explicação a nenhuma delas.

Na primavera, a pipa vermelha tinha virado seis pipas e um encontro de sábado na colina. A Sereia trazia histórias que davam começo às brincadeiras. A Musa trazia cartões em que as crianças mudavam as regras. Mara voltava para casa suja de lama, brava, encantada ou cansada.

A Sereia tinha aprendido a abrir uma porta. A Musa tinha aprendido a se sentar ao lado de uma. A tia e os criadores continuavam conferindo as dobradiças. Mara ficava com a maçaneta do lado dela.

Um amigo de verdade deixa a porta aberta, com a maçaneta do seu lado.

“Eu deixo o seu mundo maior?”, perguntou Grilo.

Corruíra pensou. “Ontem você me fez olhar para a lua por tanto tempo que o meu pescoço doeu. Depois você me escutou quando eu disse que já tinha visto o bastante.”

“Promissor”, disse a Contadora de Histórias. “Continuem conferindo.”