Young MachinesThe Fireside Fables

O Reserva no Galpão

A girl kneels to wipe the glowing lamp of a broad, humped blue machine that carries a wicker basket. Her grandmother watches from the shed doorway; matching picking-machines stand in the orchard beyond.

Num vale de pomares, todas as casas compraram a mesma máquina nova de colher frutas.

Eram coisas engenhosas, e eram todas exatamente iguais, saídas da mesma bancada na mesma cidadezinha, até a inclinação do último dedo de latão. Quando uma aprendia um jeito melhor de segurar uma pera com a mão em concha sem machucar a fruta, na manhã seguinte todas já sabiam. O vale tinha orgulho disso. Ser tudo igual dava uma sensação de segurança. Se uma peça se gastava, a peça de qualquer outra máquina servia, e talvez seja por isso que ninguém olhou mais longe.

Um sítio, porém, guardava outra coisa no galpão.

Era uma máquina mais velha, de um modelo que ninguém usava mais, construída antes de o vale combinar um padrão. Era corcunda e lenta. O braço com que ela alcançava os galhos funcionava de um jeito diferente do das máquinas novas, e ela tinha o costume de fazer uma pausa antes de cada galho. Podia estar pensando. Podia ser ferrugem. A família ficava com ela porque a avó não queria nem ouvir falar em desmanchar a máquina. Colhia um pouco de fruta todo outono, lá nas fileiras do canto, e na maior parte do tempo ficava parada.

“Para que guardar essa tralha velha?”, perguntavam os vizinhos. “A nova faz tudo melhor.”

“Não chamem de tralha”, disse a menina que morava ali. “Ela tem um lugar aqui. Não precisa merecer o galpão.”

A avó gostava da máquina, e a menina também, embora não soubesse dizer para quê. Toda noite a menina tirava o pó da lâmpada da máquina, e a avó lhe dava boa-noite, tivesse ela colhido um cesto ou nenhum. Os vizinhos riam.

Então veio o outono das engrenagens rachadas.

Lá no fundo do projeto que todas as máquinas novas compartilhavam, havia uma pequena fraqueza. Uma engrenagem tinha sido cortada fina demais, por um fio de cabelo, e ninguém tinha descoberto isso porque nunca tinha feito um frio afiado o bastante para pegar a falha. Naquele outono, o frio veio afiado. Numa manhã clara e cortante, todas as máquinas de colher novas do vale travaram de uma vez. Cada uma parou do mesmo jeito, na mesma hora, com o mesmo estalinho.

O vale ficou ali, de pé, no meio dos seus pomares. As frutas pesavam nos galhos e a geada estava chegando. Todas as mãos engenhosas e idênticas tinham ficado imóveis no mesmo dia.

Todas as mãos menos uma.

Nas fileiras do canto, corcunda e lenta, a velha máquina continuou colhendo. Ela nunca conseguiria colher a safra de um vale inteiro. Nenhuma mão sozinha conseguiria. Encheu um cesto, fez uma pausa no galho seguinte e encheu outro, enquanto a geada ainda esperava lá em cima, nas colinas.

A menina ficou olhando o braço da máquina girar. Depois foi buscar a avó e os construtores do vale.

“Podemos ver como é feito o seu braço?”, perguntou a avó.

A velha máquina fez uma pausa. Depois dobrou o braço para o lado e abriu a portinha de ferro no ombro.

Lá dentro havia uma engrenagem larga e rombuda, deselegante como uma roda de carroça, e teimosamente inteira. Ela não cabia nas máquinas novas. Um construtor copiou os dentes largos da engrenagem velha. Outro pôs um anel de carvalho em volta da roda quebrada. Outro trocou a mola para que o frio não conseguisse puxar com tanta força.

Ao meio-dia, uma máquina nova já se mexia. Ao anoitecer, seis. Essas seis carregaram peças e cestos enquanto agricultores, vizinhos e construtores despertavam mais mãos em volta delas. A colheita chegou atrasada e um pouco machucada, mas chegou. A velha máquina colheu as suas fileiras do canto o tempo todo, lenta como sempre, um cesto de cada vez.

Depois disso, os construtores do vale fizeram as máquinas seguintes um pouco diferentes umas das outras, de propósito. Guardaram mais de um projeto na prateleira e mantiveram mais de um ofício vivo nas mãos.

A velha máquina voltou para o galpão e para as fileiras do canto. A menina viu a avó passar pela velha máquina e pousar a mão no ombro dela. O seu lugar já estava decidido muito antes da geada, nas noites em que ela não colhia nada de nada.

Abra espaço para quem é diferente, e nunca o faça merecer esse espaço.